segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Entrevista para o site Cidadão Cultura

O site Cidadão Cultura, em que publiquei um texto semana passada, fez uma pequena entrevista comigo. Falamos sobre zines, livros, poesia, internet e muito mais. Quem quiser conferir, basta clicar no link abaixo:

Cidadão Cultura conversa com Carole B.

.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Minha sede é um mar de espelhos - texto meu publicado no site Cidadão Cultura

Saiu um texto meu no site Cidadão Cultura.

São tópicos poéticos que tirei do meu diário e que escrevi mais pra desabafar... mas acabaram tocando algumas pessoas e sendo publicados... fiquei muito feliz! Quem quiser ler, só clicar no link abaixo:

MINHA SEDE É UM MAR DE ESPELHOS

.

sábado, 22 de outubro de 2016

Em espera

Calada
Como a concha
Sobre a mesa
Do trabalho,

Não atendo
Se me tocas
Nas ausências.

Planejo,
Friamente,
O grande incêndio,
O desjejum.

Aperto,
Entre os dedos,
Nossa dízima,
Teus botões.

Um arsenal 
De olhos discretos
Me atravessa
Pelas ruas.

A mulher
Espera o filho
Como a água
A ebulição.

O amor 
Move meninas
Como as asas
O navio.

A cada dia,
Outro domingo.
Um deserto
De pessoas
Sob a lua
Matinal.

Usufruo,
Como esteta,
A companhia
Do teu não.

Meu casaco
Brim carmim
No granito
De uma praça
Enquanto choro
E um velho passa
Conformado
No final.

Perdi
O teu silêncio,
Mas aguento -
Dez pras nove;
Corte surdo.
Estridente
Filamento.
Dentro
Chove.

O coração
De uma Poeta
É beira,
Nunca meio;

Bola de papel
Dourada,
Livro antigo
Sem esteio

Uma bússola
Que ancora
No passeio

O sangue doce,
O mapa aberto
Que exilou-se

Uma hélice
De estrelas,
Barra de sabão
Azul.

Se me mostro agora
Oculta,
Entre direções
Sem Sul,
À revelia
De quem volta
E esbarra
Nas esperas,
É que me exultar
Não pude.

Sigo fraca, mas serena,
Estampada no que escondo
Com o ar de quem aguarda,
Paciente,
A inquietude.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Zine Rosa Rubiginosa, Alpaca Press


Estou muito feliz porque novamente saiu um texto meu em uma publicação da Alpaca Press. Dessa vez foi na zine Rosa Rubuginosa n° 1.
Quem quiser ler, basta clicar no link a seguir:

Rosa Rubiginosa #1


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

cinzas



fantasia de nudez. é que fujo (não sem medo) ao encontro de mim mesma. era raiva ancestral que parecia até um deus. não sabia de onde vinha, não sabia pra onde ia, nem se ia; não sabia - justamente - porque era onisciente. onipotente, onipresente. era onívora. tudo isso sem caber-se, inconsciente que conhece e não conecta, a cegueira das imagens, a canção de quem se cala. desvendava cada parte do meu corpo como se inventasse um mapa. o corpo, na verdade, se forjara injusto assim: através da trilha escura dessa raiva divinal. pois do mapa fez-se a carne; e da carne fez-se o cerne. antes não havia braços, pernas, bocas, sombra, luz. havia a massa amorfa da criança astuta, avessa, que desconhecia os nomes e apenas chacoalhava cada parte incompreendida que insistia em não dormir por prazer de se cansar. foi a raiva colocando cada dor ainda oculta nos seus indevidos membros, dedos sujos mas sem ponta, pele dura mascarada, tornozelo ensolarado. amar pesa feito plumas sobre os pelos no verão. sim: da raiva fez-se o gesto e do gesto, o indigesto. o estômago das flores, onde habita o inabitável. primavera nublada & um mistério transparente. uma raiva que gostava de orações - descoordenas. meus joelhos não são gordos, nem sequer os calcanhares. sei trepar como um pavão. são raquíticos os olhos, nunca tanto os meus olhares; quem diria o coração. não me fale de sentir, mas me mostre o lado bomba, o ledo engodo; mostre a mente pose-ativa, a vibração das placas-órfãs. me ajude a encontrar o meu logar, o meu perfil. que bom que me cansei muito antes de morrer - pois seria tão pior morrer cansada, a morte é leve (mas febril). trago sempre a faca em bolsas para os casos de imersão. trago sempre em facas bolsas para carregar o sangue. na tomada. de atitudes. foco sempre aquele trago. levanto a bandeira em territórios que ignoro. depois queimo. territórios. a bandeira. de raiva. raiva esteta. tão presente. impotente, inconsciente. ONÍVORA. um cachorro de três pernas que saliva a seco, espuma. areia. eu nem masco chicletes por ter pena dos sabores. temo machucar as cores. sou inteira acidez, acidentes. facção. devoro a vida começando pela parte mais quente. existe forma certa de dizer as incertezas? por que sempre me coloco em direção ao desencontro? não é nenhuma surpresa: o ego busca o surpreendente. então vaitomarnocu, vem! me engasgo mas não cuspo. ai, as purpurinas todas..... na garganta..... tudo que se cala brilha. e cega. o nada também pode se tornar transformador. veja: tudo vem do nada. e do excesso, o vazio. deixo arestas no seu TAO. sei que a principal questão é que eu odeio o carnaval. meu bem. anotou? então rasgue. novamente: tudo nada - em águas fracas. raiva azul, raiva cadente. é meu fogo o combustível. tudo sempre há de passar - só não passa o impossível.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Caderno-revista 7faces #12


Saíram três poesias minhas no Caderno-revista 7faces edição #12. O trabalho editorial ficou lindo e eu estou muito feliz por ter sido selecionada para a publicação.

Quem quiser ler, basta acessar o link abaixo. Boa leitura!



... 


domingo, 20 de dezembro de 2015

pequena cantata urbana


porque fiquei me lembrando daquele dia fatídico em que finalmente consegui segurar a sua carteira de identidade. que bobagem essa, de me sentir íntima só porque li o nome da sua mãe morta atrás de um documento sem valor - éramos rebeldes nessa época, não acreditávamos em números ou assinaturas e olha que isso foi quase anteontem (se bem que no almoço de hoje reclamamos com igual febre das minúcias que envolvem as comandas e balanças, cada um na sua própria mesa e com seu prato feito e seus copos de requeijão sempre meio vazios de vinho muito doce. temos isso em comum, gostamos de focar o lado ruim porque sabemos que ele precisa de mais luz). eu me lembro de tentar me mostrar atônita, o pensamento parecia um órgão, ou um músculo, um trecho de sangue em movimento inconstante apesar do tremor nas pernas bem disfarçado pela calça jeans com botas, os bracinhos cruzados impedindo o coração de fazer a reverência e a identidade ali, como um passaporte para o lado intocável (estranho isso de "me mostrar atônita" - estar atônito significa, de certo modo, não mostrar-se - mas conheço muito bem a arte de transformar uma emoção virulenta em pausa, apesar do arranque nas veias régias do pescoço ser sempre indisfarçável no verão). estava ali: nome completo, numerologia, a cidade onde você não cresceu, o pai ausente, a letra meio de criança porque você tremeu de raiva na hora de rubricar o "papel inútil" (!!!), a identidade sem subjetividade, seu planeta regente, o espinho na língua (prenúncio das flores), o contrato antissocial - a origem fatal da sua brilhante crueldade. tudo ali, ao meu alcance (eu gritava seu nome quando estava no escuro, mas meu medo era você). nesse dia percebi que as coisas mais importantes são a sombra inevitável de tudo que é inútil. incrível, é tão desnecessário saber seu sobrenome que, quando vejo que sei, acho especial - poucos sabem o que não tem importância a nosso respeito e por isso sabê-lo é tão importante - tanto quanto os mais graves segredos, que a maioria de nós também costuma (querer) ignorar. intimidade é esse fio tensionado entre o oculto revelador e o óbvio desimportante. a gente ficava escutando joy division por horas seguidas e ninguém compreendia como duas pessoas que se amavam podiam ser tão mórbidas juntas. mas é que quando pensamos em morbidez raramente lembramos de união. parecem coisas que não se misturam mas, na verdade, essa capacidade de fusão e transformação é algo bem mórbido, porque é invasivo. amar é sempre uma invasão, pelo menos num primeiro momento. é sempre um corpo estranho, ou estranhamente conhecido, não sei bem; é sempre um sintoma sem origem, uma sentença sem palavras, uma internação compulsiva no mistério do outro, um exame cujo resultado traz poucas soluções, talvez nenhuma. jamais pude compreender porque essa ânsia por intimidade continua tão viva dentro da minha solidão. o amor é sempre uma doença, se encaramos a doença como jornada. e que casal mais estranho!, berraria rimbaud, se bem que nós não éramos um casal, éramos uma dupla, ainda somos, só que agora cada um almoça sozinho com o que restou do outro em si mesmo. e o nome disso é cura. quem diria que a carteira de identidade seria o primeiro passo para eu acessar sua gaveta de memórias - aquela em que a gente guarda o que sabe que vai esquecer. sim: a gente guarda justamente o que é desimportante. pois exatamente aquilo que não importa é que precisa ter um espaço, um aconchego. compartilhar o desnecessário é uma necessidade do amor. daí eu pedi o prato do dia, porque era mais barato, e tomei a metade cheia do copo de requeijão meio vazio - era um vinho muito doce - e fiquei me lembrando de tudo que eu certamente esqueceria se não fossem essas gavetas que a gente cria para absorver o nada, as densidades. esse vazio inchado de camadas e portais. e revivi aquele instante em que segurei o seu registro e descobri toda a incompletude que carrega a inutilidade de um nome completo. e reclamei das pretensiosas balanças do mundo, e dos comandos, e das feridas que você abriu em mim e que hoje são apenas rastros - que eu sigo. sempre. naquele dia fatídico em que finalmente consegui segurar seu documento - que conquista! que alegria! - foi naquele dia, no momento perfeito em que percorri seu nome inteiro, que eu soube que esqueceríamos um do outro e que seríamos um para o outro a inevitável memória na gaveta. o papel de fibras curtas com gorduras saturadas. porque a intimidade também traz isso: a consciência do final. a visão desencantada por sobre o que nos inebria. seu mapa natal, seu retrato calado, seu resumo e reduto, a canção do enforcado, seus livros favoritos (ecoando nas estantes), nossas realizações, nossas possibilidades, coleção de nossas falhas. você me destruiu porque eu descobri seu nome. e como consequência não consigo mais chamá-lo. éramos rebeldes, isso eu sei, foi quase hoje, quase agora. eu costumava implorar para você me ferir - sabe, a sua crueldade continua apaixonante. don't ever fade away, escrevi em algum bilhete - nosso modo noturnal de desejar "bom dia, amor". na bagunça do adeus sobrou a tal gaveta, quem sabe até um armário inteiro, essas coisas sem sentido que escondemos na garagem para que o sol não as desperte - acordar é dar sentido. sobrou a discografia que me segue aonde eu for - que me segue, mas me guia. restou seu rosto intacto sob o vidro esfacelado - restar é resistir, isso eu aprendi com a flor. restou do vinho o amargo e do prato uma fissura. e restou a assinatura (de impronunciável dor).


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

No Apagar da Torre Alta


Isadora traçou
pequenos pássaros 
na pele
para aninhar
na carne
o céu.
No farol
da torre alta,
a nudez
do amor que nasce:
mensageiro
da vertigem
neste salto -
face a face.

É inútil escrever!
Faíscas de sabão azul 
na dobra esquerda do teu jeans
valem mais
pois são reais.

Arthur machuca Alice 
por puro altruísmo; 
é o modo que inventou 
de compartir 
a própria dor.
Luís não escreve as cartas
que Marina não vai ler.
Tão inútil insistir
quanto desistir -
de quê? 

Amália decorou
a tabuada das estrelas
que consiste em somar-se
toda noite
à escuridão.
Escrever é buscar
o lado claro da luz -
e que inútil
tentação.

Carolina se culpa
por cada angústia rasa
que é incapaz
de compreender.

Fausto nunca desistiu
de colonizar a noite
para levar, com estupor,
consigo o escuro
aonde for.

Tão banal é escrever
um poema-testamento
quanto deixar papeis ao vento
para adornar
com réus
a dor.
  
O que sobrou 
do que faltou 
foi muito pouco 
para listar -
teus fios de cabelo 
nos meus olhos 
feito areia 
um sorriso a meio palmo
a canção incidental
da navalha
na bandeira
a torre alta receosa
pulando a sós
pela janela
a caneca desmanchada
pela urgência
do café.

Eu poderia escrever
entretanto vale mais
o leite em pó e seus cristais
sumindo no final 
do cais
acompanhando a solidão
da noite azul 
quando te vais.

Daniela bordou
pequenas sardas  
sobre os ombros
para conquistar 
o sol
e do lado 
de fora
eu me tranquei
com a lua acesa -
em meus olhos,
pro teu faro,
o regalo
de um anzol
como prova
da descida
(amar é fundo
e do teu beijo
ainda raro
como isca
estou ferida -
e me inundo!)

É fugaz a nuvem mansa
que te flagra
absorto.
Muito inútil escrever -
como degolar
um morto. 

A mudez
do amor que corre:
mensageiro
da fuligem
no abandono -
faca a faca.

Na dança do adeus,
dois corpos no vazio
podem ocupar 
o mesmo espaço
enquanto o fundo de uma taça
contém o gole frio
do fracasso comprimido em que,
aos poucos,
me desfaço.

Para que lado fugiu
nosso estrelado
intento
sul?
No apagar da torre alta
resta apenas
esta falta -
inútil poema
desleixado e blue.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A vida, essa danada (ou: entrevista sem perguntas ao sujeito inexistente)



"A dor é um absurdo porque ela existe, quando nada mais."
Charles Bukowski


Sim, eu tive um grande amor. Eu tive muitas paixões. Eu só não tive muita sorte. Eu sou uma escritora e escrever é trabalho arriscado. O perigo da poesia é que ela transforma as piores coisas em beleza. E o problema da beleza é que ela é capaz de destruir o medo. O medo é fardo como o concreto que nos guarda, mas proteção nos traz leveza. A gente gosta do que pesa. No fim das contas, o medo da morte é o que nos mantém vivos. Não, não é o amor. Os românticos morreram todos jovens a ponto de não terem medo, é bem verdade - mas já não somos tão jovens, você sabe. O amor não nos mantém vivos; nos mantém alertas - como a poesia. É preciso morrer um pouco a cada nova paixão, como a cada criação. E quem não quiser morrer, que se mate na aridez caudalosa do conforto. Privilégio, nesse mundo, é escolher como acabar-se - e quantos podem? Tenho observado o seu deus e o prazer sádico que ele tem ao ver artistas cavando suas tragédias mais profundas com as febris pontas dos dedos. Uma pá, meu senhor! Uma escavadeira celeste custa pouco para quem explodiu o tempo. Ah, sim, eu estou bem, tanto quanto é possível estar. Pouco, talvez. Mas suficiente - é exatamente aí que a vida fica insuportável; o que é suficiente não me basta jamais. Preciso da falta para me sentir completa. O desconforto é o que me revigora, entende? O aperto que o sol oferece à garganta logo cedo. O que eu quero é amar tanto a ponto de gastar o amor. Do tudo ao nada em cinco simples versos livres, curtos, fechados e inexatos, extravagante concisão. Quem tem coragem de amar a face escura do fogo? A dor, eu sei que ela vai embora. Mas é que às vezes eu não acredito no que eu sei. Mais difícil é superar o que não aconteceu. Não, esse poema não é meu; eu apenas o escrevi. Se eu já tentei me matar? Nunca; mas já tentei tentar. Não tentaria outra vez: conseguiria. Com essa sua acidez, eu lamberia você todo. Não costumo me enganar. Só me engano quando estou desenganada. Às vezes deixo que me destruam, sem reagir. É meu modo bem-humorado de me achar superior. "Aceita, Carolina..." - NÃO. Aquilo que não queremos não é melhor do que nada. Prefiro residir no meu sujeito oculto. Gosto assim. Busco me tornar tudo que ninguém quer ser para que um dia alguém me queira. UM dia. No segundo eu já descanso. Porque sou mais apressada que o seu deus. No terceiro dia, então, a gente cria um mundo novo sob o signo das marés. Grandes viagens me percorrem a cada átimo. Admito que, quando sumo, é porque preciso que me encontrem. E apesar disso, não posso negar: a maior conquista que eu tive nessa vida foi a solidão. Viver é aprontar-se para a morte - mas não sei, sinceramente, se ela merece tanto zelo. O que é o amor para mim? Bem... eu teria filhos com ele. É mentira, claro. Mas eu não mentiria assim para outro - precisamente isso é o amor. Acreditar que eu posso ser diferente de mim mesma, apenas para continuar sendo a mesma de outro modo. Ser a mesma sob o aperto afetuoso do completo não-saber - isso transforma. Pois é quando nós sabemos que não somos mais os mesmos... A ausência é uma espécie de apêndice da paixão. Tento não me derramar, mas sem que para tanto eu necessite me conter. É preciso restar algo de mim para que quando o amor se mate eu ainda possa respirar. Mas eu fracasso. Eu saio inteira do meu frasco logo no primeiro passo. Saúde mental, na minha história, tem sido escolher, conscientemente, estar doente. O sintoma se tornou um companheiro de aventuras. Porque a normalidade que me cobram fere mais que a solidão. Estar inteira é uma alegria mais real que ser feliz. Sou insegura, claro! Sem nenhuma pretensão de buscar a segurança. Os que muito se seguram não conseguem mergulhar. Não desejo compreensão, só alguma aceitação. Quero um mundo que acolha o que é impossível compreender. Porque o maior entendimento é podermos partilhar esse silêncio como cúmplices. Não, não sou incoerente; contraditória, certamente. Os abismos que vicejam, eles precisam que eu me perca. Moço, não se afobe: eu sei que a tristeza passa, mas ela passa como um trator. Sabe, eu entendo os que se acalmam. Eu não julgo os que se enganam. Mas para mim, que me exaspero, saudade muita nunca foi suficiente. Eu me mordo e me deleito, eu me rasgo e me sustento nessa áspera cadência singular de ser plural.